segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Um chega pra lá na dor!



Mais de uma vez me recordo. Na infância, quando eu reclamava de alguma dor e, como se costuma dizer, fazia corpo mole para não cumprir alguma tarefa, escutava a história outra vez:

Certa vez, a dor veio visitar a Terra. Vestiu-se de forma adequada e chegou a uma casa pobre. Havia crianças, uma mulher cansada de tantos afazeres e um homem marcado pelas horas de trabalho exaustivo.
A dor gostou do lugar e se aninhou no dedão do pé direito daquele pai de família. Naquele dia, quase noite, ele se recolheu e nem deu muita atenção para a tal da dor porque o cansaço era maior do que ela.
Mal despertou a madrugada o homem acordou, pulou da cama e começou a se preparar para sair.
Não desejando despertar as crianças e a esposa, ele se ergueu no escuro e logo bateu o dedão num brinquedo esquecido no chão.
Ai, disse ele baixinho. Ui, que dor!
Acariciou o dedo dolorido com a mão calosa e enfiou o pé no calçado. A dor lhe deu uma espetada. Afinal, ela não estava gostando nada de ficar ali, apertada.
O homem, responsável, saiu mancando. O dedo latejava. Ele sentiu a dor diminuir um pouco quando tirou o pé do calçado, no trajeto que fez de ônibus.
Contudo, logo mais chegou ao destino. Calçou o sapato e andou.
Assim foi o dia inteiro. A dor reclamando, o homem sentindo mas dizendo: Eu preciso continuar. Não posso perder este emprego. Meus filhos dependem de mim.
E tudo acontecia. Ora o dedão topava na quina de um móvel, ora o sapato apertava mais, ora...
A noite surpreendeu o homem na labuta, suando, trabalhando. A dor já não aguentava mais.
E, quando ao ir para casa, o dedão topou numa pedra do caminho, foi o fim. A dor ficou muito zangada e disse: Vou embora. Este homem não sabe me tratar bem.
E lá se foi. Perto dali, ela encontrou uma casa muito bonita, confortável e entrou.
Um homem estava largado no sofá da sala, assistindo televisão. A dor gostou de tudo que viu e se instalou no dedão do pé.
Ai, gritou ele. Que coisa esquisita. Que dor terrível!
Já providenciou uma almofada para acomodar o pé. Ao recolher-se para dormir, enfaixou o local e no dia seguinte, fez repouso.
E no outro, e no outro.
A dor adorou aquele tratamento vip e tomou uma resolução: Não saio mais daqui!


* * *

Quando a história terminava, eu já sabia que teria que dar conta das minhas responsabilidades.
Era a forma de minha mãe me ensinar que eu devia ser forte; que pequenas dores deviam ser suportadas e de forma alguma serem motivo para não se cumprir as obrigações.
Essa atitude serviu para me tornar alguém com maior capacidade de suportar reveses e dificuldades.
Quando tudo parecia conspirar contra mim e eu tinha vontade de desistir, lembrava da história da dor. E retomava a luta.

* * *

A dor física é sempre sinal de que algo não está bem no organismo. O bom senso nos diz que se deve procurar um médico para verificar o que seja, antes que o mal avance.
No entanto, pequenos incômodos levam algumas pessoas, por vezes, a logo optarem por se prostrarem e negligenciarem a atividade profissional, descumprirem suas obrigações.
São desculpas, fugas com a intenção de faltar ao dever.
Pensemos nisso e não nos permitamos entregar por pequenas coisas.
Afinal, quem aprende a bem administrar pequenas questões físicas obtém fortaleza moral para eventuais dificuldades orgânicas graves que possa vir a ter e, mesmo, fortalecimento para as dores morais que tenha que enfrentar.
Pensemos nisso.

9 comentários:

Luna Sanchez disse...

Sweet,

gostei da história, da visão do quanto é errado privilegiar a dor, como se invertêssemos os valores das coisas.

Muito bom, moça.

Beijos e tenha uma semana linda.

ℓυηα

Menina Misteriosa disse...

Sweet,
Boa história - não conhecia. Ótima reflexão.
As vezes, deixamos uma pequena coisa ou desconforto nos abalar, porque esquecemos de ver a cena como um todo e dar valor ao que está acontecendo de bom. Além disso, tentamos sempre achar um culpado ou uma desculpa - e a dor física ou emocional vem a calhar para quem procura um escape e, portanto, adora cultivá-las.
Boa semana, lindona!
Beijos

Altavolt disse...

Essas mães sabem tudo, Sweet! Tenho certeza de que vc se tornou a jovem brilhante que é, em grande parte, graças aos ensinamentos da sua sábia mamãe! Beijão!

Luna Sanchez disse...

Oi, flor!

Tô melhor, sim, obrigada por perguntar. Agora já estou com o gesso propriamente dito...só deixar o tempo fazer sua parte.

Sei como é essa volta de férias...mil coisas a serem feitas, mesmo.

Beijos, beijo, beijos.

ℓυηα

Luna Sanchez disse...

Passando pra desejar que a semana seja linda, linda. ^^

Beijo, moça.

ℓυηα

xoogle disse...

Ahhh ST,

Se minha mãezinha me contasse historinha assim desse jeito, aí é que eu não ia parar de sentir dor... eu ia inventar uma todos os dias, só pra ela repetir a história... haha

Mas, preciso ser justo, mammi me contava a do Joãozinho e Maria. Era assim:
Joãozinho e Maria resolveram brincar na floresta...

Ivan.

Déia disse...

ui.. Amei.

Até doeu tanta verdade rsrsrsrs

qtas vezes temos um benefício e nos escondemos atras de certas 'dores"..

Eu ja dei minha cara ao mundo...

bj

Sweet Toxicant disse...

Luna: Há gente que gosta até de aumentar a dor pra ser sempre vítima, coitadinha.. triste, né?

Menina: Disse tudo!! Eu tento passar longe dessas pessoas, porque essa energia acaba se estendendo ao redor... eu, hein? rsrs

Alta: Hehehe.. fico vermelha assim... =P

Ivan: Hahaha, manhoso!!

Déia: Todos erramos, e muitas vezes nos deixamos influenciar por coisas que não exatamente fazem parte de nós... Mas o fato de ter coragem de encarar o mundo e as verdades, mudando de atitude, é uma vitória!

Beijos carinhosos a todos!

Luna Sanchez disse...

Docinho, deu saudade, vim deixar beijos. ^^

ℓυηα