quinta-feira, 18 de junho de 2009

A Executiva


Crônica do Max Gehringer, achei formidável. Principalmente para refletirmos que é importante ter uma boa qualificação, ser competente, pró-ativo, e conseguir uma boa colocação na empresa. Mas não devemos colocar isso no topo das nossas necessidades nem ficarmos fanáticos, histéricos, ansiosos (isso serve pra mim)... porque no final das contas, isso tudo cai por terra mesmo... hehehe


A EXECUTIVA

Foi tudo muito rápido. A executiva bem-sucedida sentiu uma
pontada no peito, vacilou, cambaleou. Deu um gemido e apagou. Quando
voltou a abrir os olhos, viu-se diante de um imenso Portal.

Ainda meio zonza, atravessou-o e viu uma miríade de pessoas. Todas
vestindo cândidos camisolões e caminhando despreocupadas. Sem entender
bem o que estava acontecendo, a executiva bem-sucedida abordou um dos
passantes:

- Enfermeiro, eu preciso voltar urgente para o meu escritório,
porque tenho um meeting importantíssimo. Aliás, acho que fui trazida
para cá por engano, porque meu convênio médico é classe A, e isto aqui
está me parecendo mais um pronto-socorro. Onde é que nós estamos?


- No céu.

- No céu???!!!...

- É.

- Tipo assim... o céu, CÉU...? Aquele com querubins voando e
coisas do gênero?


- Certamente. Aqui todos vivemos em estado de gozo permanente.

Apesar das óbvias evidências (nenhuma poluição, todo mundo
sorrindo, ninguém usando telefone celular), a executiva bem-sucedida
custou um pouco a admitir que havia mesmo apitado na curva.

Tentou então o plano B: convencer o interlocutor, por meio das
infalíveis técnicas avançadas de negociação, de que aquela situação era
inaceitável. Porque, ponderou, dali a uma semana ela iria receber o
bônus anual, além de estar fortemente cotada para assumir a posição de
presidente do conselho de administração da empresa.

E foi aí que o interlocutor sugeriu:

- Talvez seja melhor você conversar com Pedro, o síndico.
- É? E como é que eu marco uma audiência? Ele tem secretária?
- Não, não. Basta estalar os dedos e ele aparece.
- Assim? - tlec!
(...)
- Pois não?

A executiva bem-sucedida quase desaba da nuvem. À sua frente,
imponente, segurando uma chave que mais parecia um martelo, estava o
próprio Pedro.

Mas, a executiva havia feito um curso intensivo de approach para
situações inesperadas e reagiu rapidinho:

- Bom dia. Muito prazer. Belas sandálias. Eu sou uma executiva
bem-sucedida e...

- Executiva... Que palavra estranha. De que século você veio?

- Do 21. O distinto vai me dizer que não conhece o termo
'executiva'?

- Já ouvi falar. Mas não é do meu tempo.

Foi então que a executiva bem-sucedida teve um insight. A máxima
autoridade ali no paraíso aparentava ser um zero à esquerda em modernas
técnicas de gestão empresarial. Logo, com seu brilhante currículo
tecnocrático, a executiva poderia rapidamente assumir uma posição
hierárquica, por assim dizer, celestial ali na organização.

- Sabe, meu caro Pedro. Se você me permite, eu gostaria de lhe
fazer uma proposta. Basta olhar para esse povo todo aí, só batendo papo
e andando a toa, para perceber que aqui no Paraíso há enormes
oportunidades para dar um upgrade na produtivida de sistêmica.

- É mesmo?

- Pode acreditar, porque tenho PHD em reengenharia. Por exemplo,
não vejo ninguém usando crachá. Como é que a gente sabe quem é quem
aqui, e quem faz o quê?

- Ah, não sabemos.

- Entendeu o meu ponto? Sem controle, há dispersão. E dispersão
gera desmotivação. Com o tempo isto aqui vai acabar virando uma
anarquia. Mas nós dois podemos consertar tudo isso rapidinho
implementando um simples programa de targets individuais
e avaliação de performance.

- Que interessante...

- É claro que, antes de tudo, precisaríamos de uma hierarquização
e um organograma funcional, nada que dinâmicas de grupo e avaliações de
perfis psicológicos não consigam resolver.

- !!!...???...!!!...???...!!!

- Aí, contrataríamos uma consultoria especializada para nos ajudar
a definir as estratégias operacionais e estabeleceríamos algumas metas
factíveis de leverage, maximizando, dessa forma, o retorno do
investimento do Grande Acionista... Ele existe, certo?

- Sobre todas as coisas.

- Ótimo. O passo seguinte seria partir para um downsizing
progressivo, encontrar sinergias high-tech, redigir manuais de
procedimento, definir o marketing mix e investir no desenvolvimento de
produtos alternativos de alto valor agregado. O mercado telestérico,
por exemplo, me parece extremamente atrativo.

- Incrível!

- É óbvio que, para conseguir tudo isso, nós dois teremos que
nomear um board de altíssimo nível. Com um pacote de remuneração
atraente, é claro. Coisa assim de salário de seis dígitos e todos os
fringe benefits e mordomias de praxe. Porque, agora falando de colega
para colega, tenho certeza de que você vai concordar comigo, Pedro. O
desafio que temos pela frente vai resultar em um Turnaround radical.

- Impressionante!

- Isso significa que podemos partir para a implementação?

- Não. Significa que você terá um futuro brilhante... se for
trabalhar com o nosso concorrente. Porque você acaba de descrever,
exatamente, como funciona o Inferno...

Max Gehringer
(Revista Exame)

3 comentários:

Stefany disse...

Hahahaha, fantástico!!! hahahaha...
Max Geringher fez esse texto plenamente inspirado, ficou muito bom... Forte concorrendo de arnaldo Jabor??? hahahahah

Altavolt disse...

Muito bem pinçado, cara Sweet! Texto inteligente e didático para a maioria dos "modernos" profissionais do mercado. Hoje em dia, há muita frescura e muitas teorias e definições refinadas para coisas muito simples e frugais. Haja paciência! Tais profissionais realmente merecem ir para o inferno! Simplicidade é o que precisamos, em todos os sentidos! Grande beijo!

Luna Sanchez disse...

Incrível como as coisas boas são "irritantemente" simples, não?!

Rs

Um beijo,

ℓυηα