quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Viva, e depois esqueça

A capacidade de esquecer é o que existe de mais precioso sobre a face da
terra, sob as nossas faces. Amar é sem dúvida mais magnânimo, mas não é tão
vital quanto o esquecimento: é ele que nos mantém vivos. O amor torna a
paisagem mais bonita, mas é o bálsamo curativo do esquecimento que nos faz
ter vontade de abrir os olhos para vê-la. A paixão empresta um sentido
quase mítico aos dias, mas é esquecer da excruciante tristeza perante a
morte dela que nos torna aptos para nos encantarmos novamente.

Já esqueci amores inesquecíveis e sobrevivi a paixões que, tinha convicção,
me matariam se terminassem. Às vezes cruzo na rua com fantasmas que já
foram bem vivos na minha história e não deixo de sentir uma certa
melancolia por perceber que aquele rosto um dia cheio de significado se
tornou tão relevante quanto um outdoor de paste de dente, por não conseguir
sequer recordar o que me moveu em direção a ele: algumas pessoas
simplesmente são apagadas da memória como filmes desimportantes. Sem
maldade, apenas esmaecem até desaparecer. É impossível nos lembrar de todos
os que passaram por nós ou sermos lembrados por todos: gente demais, espaço
de menos. Da mesma forma que minha história está repleta de coadjuvantes e
figurantes que, irrefletidamente, se auto-proclamavam protagonistas (e hoje
foram reduzidos a um punhado de reminiscências engraçadas), eu devo ser a
personagem cômica da história de algum ex: ninguém se esquiva da
experiência constrangedora de bancar o bobo da corte no reino de alguém.

Mas essa morte não vem sem um certo pesar. É ruim notar que já não
significamos praticamente nada para quem importou tanto. Na verdade é
dolorido ser olvidado por qualquer um (golpes no ego dóem independente de
quem os desfira): não é fácil encarar que não somos insubstituíveis nem
vitais e que a nossa saída displicente abre uma possibilidade de entrada
tão desejada por outros. Mas só nos desenroscamos e seguimos nosso rumo
natural, em frente, quando eliminamos alguns fatos e seres que, caso
contrário, nos prenderiam aos emaranhantes aguapés de recordações e
sentimentos tão marcantes quanto inúteis.

"Há pessoas que ficam doendo com a lembrança de outra pessoa, entra ano,
sai ano, virando e revirando o caleidoscópio, olhando como caem e de dispõe
as cores e os cristais do sofrimento" (Paulo Mendes Campos). O passado deve
ser mantido no lugar dele e não trazido pregado as costas como um fardo com
os erros cometidos e alegrias nunca mais revividas. Para ser feliz é
necessário pouca coisa além se livrar do excesso de carga e esquecer as
coisas certas. É útil também jamais perder de vista um detalhe, afixá-lo no
espelho do banheiro, repetir como um mantra: absolutamente nada é pra
sempre, nem sentimentos que parecem ser (a vida seria um lago estagnado
se só existisse o perene). Nunca mais haverá amor como aquele? Ótimo, porque
o novo é tão imenso que seria um desperdício se algo se repetisse.
Todo mundo passa. E é bom que seja assim.

4 comentários:

Sujeito Oculto disse...

Outro dia encontrei uma ex-namorada. Ela não estava muito bonita e namorava um gordo que, na época, era amigo dela. Eu estava de camiseta regada e totalmente em forma. Pior pra ela.

Codename V disse...

O texto é bonito, e fala algumas verdades que se aplicam a todos.
Mas como é dífícil aplicar isso na prática...

Altamir disse...

Bela Sweet Toxicant, Esquecemos e somos esquecidos o tempo todo. Chamou minha atenção o comentário acima. Será que a moça não estaria por acaso muito mais feliz ao lado do "gordo"? Talvez ele tivesse outros atrativos e encantos que não apenas bíceps bem torneados. Pelo teor do comentário, sinceramente, não sei para quem foi pior e o que foi pior! Beijo!

Sweet Toxicant disse...

Altamir,

É.. na verdade, cada um tem a sua referência do que é estar melhor ou pior.
Eu vou atrás dos valores subjetivos (caráter, essência). O objeto é tão volátil que não vale a pena nos apegarmos a este tipo de detalhe.

Obrigada pela visita! Fiz uma visitinha no seu blog também ;o)

Beijo!